Publicado por: Lupe Cotrim | 16/11/2010

Ato-debate: Homofobia, até quando?

O que a comunidade USP pode fazer para prevenir casos de homofobia? Vamos discutir!

 

A homofobia no meio universitário tem se tornado uma questão complexa por sua recorrência que tem aumentado como também pela falta de políticas de combate por parte das reitorias. Muitos casos de agressão física, moral e verbal contra estudantes LGBT têm ocorrido com maior freqüência e a USP não está fora desse problema. Apenas neste ano, tivemos dois casos de homofobia: o pasquim virtual feito por alguns estudantes da farmácia, em abril, incitou agressão contra homossexuais e, recentemente, dois estudantes foram agredidos na festa “Outubro ou nada“, organizado pela Atlética da ECA. Por conta disso, realizaremos um ato debate para discutir a luta contra homofobia no Brasil e as possibilidades de construção de ações dentro da USP para o combate dessa prática de intolerância. Convidamos você a participar desse ato debate que acontecerá no dia 18 de novembro com o tema “Homofobia até quando? o que a Universidade tem a ver com isso?”. Divulguem para sua lista de amigos e venha conosco participar desse debate.

ATO DEBATE Homofobia até quando? O que a Universidade tem a ver com isso?”

Dia 18 de novembro de 2010
às 18h00
Prédio da Ciências Sociais – FFLCH – USP
Sala 108
Organização: Grupo Prisma e Coletivo DS
Publicado por: Lupe Cotrim | 02/11/2010

Resposta à homofobia na Outubro ou Nada

Caro colega, na sexta-feira 22 de novembro, durante a festa Outubro ou Nada, da ECAtlética, aconteceu agressão covarde a um casal homossexual por três homens não identificados. Um dos agredidos, aluno da Biologia-USP, falou sobre o caso, que ganhou repercussão na mídia.

Nós da ECA queremos dar uma resposta à homofobia, para marcar nossa posição de faculdade plural e respeitadora dos direitos humanos. Para isso, convidamos os alunos para as seguintes atividades que acontecerão essa semana:

3 de Novembro – 20h na sala do Calc, oficina de materiais contra homofobia e machismo (para o ato do dia seguinte)

4 de Novembro – Ato Fúnebre – Contando as nossas mortes

O ato tem por objetivo denunciar as mortes de gays, lésbicas, travestis e transexuais resultadas do crime de ódio que ocorrem anual e absurdamente no Brasil, tornando-o o primeiro no ranking mundial de assassinatos contra a população LGBT. Aproveitando a semana do dia dos finados, queremos comunicar à comunidade uspiana os casos de violência extrema que tiraram a vida dessas pessoas por conta da sua orientação sexual e identidade de gênero, bem como exigir a aprovação do PLC 122/2006 que criminaliza a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. Objetivamos sensibilizar a comunidade uspiana para essa luta. Denunciaremos também mais outro caso de agressão na USP contra estudante assumido gay da Biologia.

 

No Bandejão Central – CRUSP

Dia 04 de novembro de 2010

das 11h00 às 14h00

e das 17h30 às 19h45

 

Participe! Vamos dar uma resposta à violência.

 

Em setembro, PUC, ECA e São Francisco se reúnem para discutir umas questão essencial para mulheres e homens do Brasil: a legalização do aborto.
Segundo dados da Pesquisa Nacional do Aborto, uma em cada cinco mulheres já interrompeu uma gravidez. Ainda assim, essa prática é ilegal, passível de prisão.
Denúncias, cirurgias de risco, mortes de mulheres.
Lei que pune mais uns que outros. Desigual.
Venha- se colocar e ajudar o Brasil a estabelecer uma política coerente para suas mulheres.

Próximo encontro do Núcleo no dia 15 de setembro, quarta-feira, às 17h30 no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA (sala a confirmar) com a presença da professora do Departamento de Antropologia da USP, Heloísa Buarque.

Publicado por: Lupe Cotrim | 09/05/2010

Encontro de quarta, dia 12.05, debate Movimento LGBTT

Olá, ecan@!    

O próximo encontro do Núcleo de Gênero do Calc acontece nesta quarta-feira, dia 12.05, às 18h, na vivência.   

Depois de debater no último encontro o caso de homofobia do jornal “O Parasita”, que circulou na Faculdade de Farmácia da USP, o tema da vez é Movimento LGBTT.   A estrutura de abordagem do tema será a seguinte:  

1) Abertura com trecho de texto de Caio Fernando Abreu*    

2) Pequena apresentação sobre a vida do escritor

3) Panorama histórico das origens do movimento LGBTT no mundo

  4) Orgãos oficiais e militância LGBTT no Brasil    

5) Abertura para debate  

Compareça, a sua participação é essencial para construir esse espaço de debate e diálogo na ECA!  

* Segue o trecho abaixo, para lê-lo na íntegra, vá na seção Textos de Apoio deste blog.

Aqueles dois 
(História de aparente mediocridade e repressão)

Caio Fernando Abreu

      A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como “um deserto de almas”. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou (…) Não chegaram a usar palavras como “especial”, “diferente” ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece, porém, que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

      (…) Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

      Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de “um deserto de almas”, para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

      (…) Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam.

      (…) Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

      (…) Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

      Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa. No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando: mas ele é que devia estar de luto!!

      (…) Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”, sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

      Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

      Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

      Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Publicado por: Lupe Cotrim | 26/04/2010

Encontro: Debate sobre a homofobia

O conhecimento, ele próprio, não é suficiente para apaziguar as mentes e torná-las sábias. Nos esquecemos disso e de repente nos defrontamos com manifestações de intolerância, de violência dentro da Universidade. Nos revoltamos, muitos se revoltam, a mídia aponta, divulga, e a perplexidade manifesta-se, as vezes como ódio recíproco, as vezes como paralisação.

Semana passada, assistimos mais um caso de homofobia, de preconceito explícito, veiculado em uma publicação “clandestina” da Farmácia, USP. O jornal “ O Parasita”, feita por estudantes da faculdade, desvinculado de entidades estudantis,  publicou o seguinte desafio: “ jogue merda em um viado, que você receberá, totalmente grátis, um convite de luxo para a Festa Brega 2010”. A contragosto, veiculo esse trecho aqui pela força da expressão, pela violência dos termos, para que as pessoas possam compreender o que isso representa, sem meias palavras. O Centro Acadêmico e a Atlética da Faculdade já se pronunciaram repudiando a publicação e muitos outros órgãos estudantis têm manifestado sua indignação com o fato.

O Núcleo de Gêneros da ECA organizou, emergencialmente, um encontro para discutir o tema, expandir a conscientização e analisar a repercussão que o caso teve na grande mídia. Principalmente, o núcleo pretende demarcar sua posição e propor um espaço de diálogo e produção,  para aqueles que se sentiram instigados a falar, ou para aqueles que tenham visto em si o preconceito.

Todas e todos convidad@s!!

Quarta-feira, 28/4, 18h, na Vivência da ECA

O caso teve repercussão na mídia. Confira algumas das reportagens publicadas:

Jornal feito por alunos estimula ataques a homossexuais
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2010/04/jornal-feito-por-alunos-estimula-ataques-homossexuais.html

Jornal anônimo de alunos da USP “desafia” universitários a jogar fezes em homossexuais
http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/04/23/jornal-anonimo-de-alunos-da-usp-desafia-universitarios-a-jogar-fezes-em-homossexuais.jhtm

Suposto informativo de alunos da USP incita universitários a jogar fezes em gays
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u725318.shtml

Farmácia da USP chama gays à ‘Festa Brega’ após jornal hostilizá-los
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/04/farmacia-da-usp-chama-gays-festa-brega-apos-jornal-hostiliza-los.html

Jornal de alunos da USP pede para jogar fezes em gays
http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2010/04/jornal-de-alunos-da-usp-pede-para-jogar-fezes-em-gays.html

Jornal de alunos de farmácia da USP pede para jogar fezes em gays
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/04/jornal-de-alunos-de-farmacia-da-usp-pede-para-jogar-fezes-em-gays.html

Jornal universitário pede a alunos da USP que joguem fezes em gays
http://noticias.r7.com/vestibular-e-concursos/noticias/jornal-universitario-incita-alunos-da-usp-a-jogarem-fezes-em-gays-20100423.html

Jornal de alunos de Farmácia prega homofobia
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100424/not_imp542353,0.php

Alunos da Farmácia-USP citados em jornal da faculdade criticam textos preconceituosos
http://guiadoestudante.abril.com.br/vestibular/noticias/alunos-farmacia-usp-citados-jornal-faculdade-criticam-textos-preconceituosos-552630.shtml

Publicado por: Lupe Cotrim | 22/04/2010

2º Encontro de Mulheres da USP + Crusp

Hoje acontecerão duas atividades para unir as mulheres da USP, fiquem ligados:

-> 2º Encontro de Mulheres da USP

“No dia 14 de abril aconteceu a 1ª reunião do Coletivo de Mulheres da USP.
Nela, estavam representadas mulheres de vários cursos da nossa universidade, e percebemos que as estudantes da USP tem muito interesse em debater a questão das mulheres visto o tamanho do nosso encontro.

Estamos em uma fase inicial da construção do nosso grupo, e as reuniões têm tido um carater de formação visando, posteriormente, a consolidação do grupo para que tenhamos uma atuação qualificada no que diz respeito as pautas das mulheres universitárias.

Nesta reunião começamos a fazer primeiras discussoes sobre o caráter do nosso grupo. Uma das principais discussôes giraram em torno de como iremos nos organizar: através da auto-organização (um grupo composto somente por mulheres) ou do grupo misto (composto por homens e mulheres).

Traga as suas contribuições para o nosso proximo encontro! Ele será no dia 22 de abril, às 18h, na Sala 09, no prédio da História e Geografia”.

-> A violência contra a mulher e a criminalização do CRUSP

Quinta-feira, 22 de abril, ás 20h
Em frente ao bloco G do CRUSP

cartaz debate mulheres

Publicado por: Lupe Cotrim | 13/04/2010

Próximo Encontro – 14/04 – a partir das 18h

Olá car@s ecan@s!

Dia 14/04, quarta feira, é o dia do próximo encontro do núcleo de gênero. O assunto da semana passada era Clarice Lispector e a mulher na literatura brasileira. Esta semana, iremos retomar o tema para fechar o assunto, além de arrumar nosso calendário para os próximos encontros.

O texto da semana passada era o conto O Amor de Lispector (cujo início está colado aqui embaixo), e há um texto novo para esta, O amor (e a mulher): uma conversa (im)possível entre Clarice Lispector e Sartre, escrito por Valeska Zanello. Para acessar, é só baixar o pdf indicado na aba


*

O Amor

Clarice Lispector


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

Leia o resto aqui.

Publicado por: Lupe Cotrim | 24/03/2010

A Explosão do Feminino – Ciclo de leituras no TUSP

Projeto: Leituras Públicas – CICLO III – A EXPLOSÃO DO FEMININO O Núcleo de Experiência e Apreciação Teatral do Teatro da USP – TUSP apresenta o III Ciclo de seu Programa de Leituras Públicas, que a cada ciclo, propõe o dizer de textos de autores eminentes do teatro ocidental. Os textos são lidos por funcionários da área artística do TUSP, por artistas em formação, por atores convidados e pelo público presente, além de contarmos com participantes da Universidade Aberta à Terceira Idade.

Espera-se que o programa possa criar públicos específicos que acompanhem os ciclos, abrindo espaço para a experiência da platéia constituída por elos diferenciados, que estão para além da presença eventual; a fruição pode favorecer, a partir dessa premissa, sentidos de pertencimento à coisa pública, por meio da experiência estética. Após a experiência nos I e II Ciclos, que enfocaram, respectivamente, peças radiofônicas e peças de um ato do dramaturgo russo, Anton P. Tchékhov, o III Ciclo do programa realizará a partir de abril de 2010, a leitura pública de peças de períodos e estilos diferentes, que colocam a figura da mulher ou do feminino como elemento de ruptura. Quintas-feiras das 15hs às 18hs. Entrada Franca.

01/4 – Abertura com participação de Lucia Romano

08/4 – Medéia de Eurípedes 15/4 – Macabeth de William Shakespeare

22/4 – Casa de Bonecas de Henrik Ibsen

29/4 – A Mãe Coragem de Bertold Brecht

Publicado por: Lupe Cotrim | 24/03/2010

Clarice no Núcleo

Clarice Lispector e a mulher brasileira na literatura

Este é o tema do próximo encontro do Núcleo de Gênero do Calc.

Amanhã, dia 24/03, às 18h, na vivência da ECA.

Não deixe de participar! Sua presença é fundamental na construção e nos rumos do Núcleo.

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